A Linguagem do Amor pelos Caminhos de Compostela

Solimar Leão no Caminho de Santiago de Compostela

Após anos de espera, finalmente chegava o momento de iniciar a tão sonhada peregrinação pelo “Caminho de Santiago de Compostela”, na Espanha. Pesquisamos  tudo sobre o caminho nos mais variados livros, filmes e decidimos fazer o caminho mais tradicional (e também o mais longo), o “Caminho Francês”, com 819 km, partindo de Saint-Jean-Pied-de-Port, na fronteira com a França.

O primeiro albergue que ficamos em Saint-Jean-Pied-de-Port (FRA) era um antigo cinema e surpresa! tinha o banner do primeiro filme que nos inspirou a fazer o caminho!

Todos perguntavam que loucura era essa e o que nos motivava percorrer a pé toda esta distância, dormindo em beliches em albergues com mais de 100 peregrinos do mundo todo e caminhando 10 horas por dia com uma mochila de 10 kg nas costas? E a resposta era um desejo profundo de encontrar respostas e testar todas as formas de desapego e simplicidade.

 

Das mais variadas lendas que existem sobre o caminho, a mais conhecida (e a mais contada pelos “hospitaleiros” que acolhem os peregrinos nos albergues) conta que, no ano de 812 DC, um eremita   avistava todas as noites uma chuva de estrelas pousar sobre um local do bosque em que vivia (Campus Stellae, que gerou posteriormente o termo Compostela, “campo de estrelas”). Ao cavarem encontraram uma urna de mármore, que, após a visita do Bispo Teodomiro de Iria Flávia, constatou tratar-se do sepulcro do apóstolo Santiago. Seus discípulos haviam recolhido os restos mortais do apóstolo decapitado por Herodes em Jerusalém, colocaram em uma urna de mármore e teriam fugido para escondê-lo e enterrá-lo na Galícia, local escolhido por Tiago para as pregações cristãs após a morte de Jesus.

A partir daí, as peregrinações se iniciaram, de Carlos Magno a Ordem dos Templários, muitas lutas e muita história foi escrita pelo caminho, sempre permeado pelo sentido espiritual de uma viagem profunda em busca de respostas.

Durante os 32 dias de peregrinação, conhecemos pessoas do mundo todo, das mais variadas classes sociais, faixas etárias, homens, mulheres, casais, pessoas solitárias e até mesmo famílias.

Em um dos albergues que ficamos, o Albergue da Paróquia de Grañon, a integração entre os peregrinos do mundo inteiro para preparar a "cena" comunitária foi algo realmente emocionante. Pessoas de todas as nacionalidades que se possa imaginar (Russia, Japão, Turquia, Alaska!) reunidos e juntos preparando o jantar que foi compartilhado entre mais de 60 peregrinos.

Blog Solimar Leão Peregrinação ao Caminho de Santiago de CompostelaEram muitos idiomas falados pelo caminho, do russo ao japonês, grego, polonês. Muitas vezes ninguém se entendia pelas palavras, mas independente da nacionalidade, como se estivéssemos em uma realidade à parte, um “Universo Paralelo”, havia uma língua comum que todos compreendiam e que falava direto ao coração: era a língua do amor, da caridade, da solidariedade e da compaixão.

Ao longo do caminho, muitas amizades foram criadas, todos se ajudavam, compartilhavam refeições, remédios para as dores do corpo, da alma e todos estavam lá, longe do conforto dos seus lares, dormindo nos mesmos albergues, comendo nos mesmos lugares, recompondo as energias sob as mesmas árvores.

Todos os peregrinos com o mesmo propósito e independente da origem, com um único senso comum: de “pertencimento ao caminho”.

Todos sem máscaras, sem amarras, sem apegos e sem defesas, abrindo o coração uns para os outros, compartilhando suas tristezas, seus amores, suas paixões, desilusões, suas buscas, suas dúvidas e respostas, com um profundo sentimento de compaixão e acolhimento.

Ao retornar, um sentimento de saudades, o processo de transformação interior foi realmente profundo. As relações criadas, ficarão registradas e marcadas nas nossas vidas para sempre.

 


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